[Literatura] O arcaico e seus demônios

08.07.2020

 

I

 

Ainda muito pequeno, sentado à mesa – seus olhos ficavam na altura dos pães e das massinhas –, ele tinha de aguardar poucos minutos até que seu pai fizesse a oração. Era sempre ele. Quase uma lei. O pouco tempo parecia uma eternidade, levando seus ombros a relaxarem sobre a beirada da mesa.

Passaram-se anos, quando o menino já era apenas uma imagem em uma lâmina de um lago adormecido, para interpretar aquele deus a quem seu pai agradecia. Quem era aquele ser que só se apresentava na mediação de outro ser? Enquanto o pai ficava distante do filho crente que era preciso trabalhar para colocar o pão sobre a mesa, era ao inumano aquelas palavras na oração no café da noite, como se seu suor e sua força de trabalho fossem uma dívida impagável. Difícil ainda entender como poderia uma existência ser suprema após predicada por humanos.

 

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Na exaustão de seu pai acentuada nas linhas sofridas de seu rosto, de sua postura arcada e de seu andar pesado, o pouco de energia restante era sequestrado por esse inumano. Júlio crescera com esse estranho latejando por seus poros enquanto o tempo com a família lhe era furtado.

 

Décadas depois, Júlio percebeu a função perversa da religião, a de conformar o sofrimento de seu pai, pervertendo sua força de trabalho em migalhas. Uma medida sem forma, como o deus que impõe sua pesada mão sobre a consciência dos “justos”, fazendo-os carregar o peso da culpa. O peso da mão de deus.

 

A existência de seu pai era dividida entre seu esforço para colocar o pão sobre a mesa, pago com um pequeno tempo de seu trabalho, e sua energia dedicada a esse ser sem matéria, com o qual ele acalmava sua ira causada pelas horas a mais trabalhadas e expropriadas. Nascia ali, para o filho, um pai dividido. Um pai que não sustentava mais a rigorosa lei com que educara o filho.

Fazia-se reveladora para Júlio sua própria divisão, sob a qual esse estranho familiar era o ser entre ele e seu pai. Erguia-se do lago adormecido um revolucionário para destruir pedra por pedra a represa seletiva de afetos iniciada no seio da família.

 

II

“Sempre permaneci no andar térreo ou no subsolo do edifício”, abaixo da manta de sentidos que forma a consciência. Um jovem amigo psiquiatra era incapaz de entender o analista do inconsciente. Melhor dizer: incapaz, na sua soberba, de se colocar na posição de escuta. “Você está muito alto em relação a mim”, dizia o pai do andar de baixo, esse arqueólogo do subsolo. Ele fez as escavações desse subsolo que existe em cada um de nós, cujos pensamentos estranhos brotam dele (do subsolo) involuntariamente e não cessam de bater à porta da consciência como se fossemos todos hóspedes desajustados – sempre em débito.

 

O arcaico é o que evoca o tempo perdido, varrido do andar de cima, para enfrentar os fantasmas que não cessam de assoviar por entre as frestas do assoalho. Ele se perde nas memórias para enfrentar o que o atormenta. De costas para o homem medíocre que vive para satisfazer às demandas do seu tempo, o arcaico é um fora do tempo linear tentando escutar a voz que vem do subsolo.

Júlio sempre duvidou de seus pensamentos como se eles não fossem unicamente seus. Por isso, ele é um arcaico que se volta ao subsolo. Tem a coragem de enfrentar seus demônios, essa voz oculta que o faz trocar palavras, num gesto involuntário de um semiólogo surrealista, condensando imagens para criar símbolos ilegíveis à consciência. O arcaico é aquele que tem a coragem de entrar em seu labirinto borgiano, o qual se faz na tessitura entre o andar de cima e o de baixo. 

 

III

 

Os traços não figuravam nada, ao mesmo tempo em que as linhas inferiores, as duas paralelas com pequenas curvaturas – como a de duas pernas –, eram acompanhadas, ao mover o olhar para cima, por uma sucessão de rabiscos numa escala crescente, formando algo parecido com o tronco de um corpo humano. Abruptamente, esses rabiscos eram cortados por duas linhas opostas – como se fossem dois braços. Na parte superior desses rabiscos, que sugeria um tronco, um círculo deformado deixava o desenho ainda mais sugestivo. Estavam ali os traços de uma criança com a intervenção de um adulto, ao escrever abaixo da figura: unicórnio. O ser imaginário estava representado numa folha amarelada, guardada pelo arcaico com seus pertences entulhados em seu quarto.

 

Na época, seu pai anotara abaixo do desenho o significado atribuído pela criança. Mas qual era a diferença entre um traço significar um ser se ele estava, antes mesmo do desenho, no próprio menino, quando Júlio tinha quase quatro anos? Depois de tanto tempo, ele poderia olhar para aqueles traços e ver como foi insolente a atitude de seu pai ao reforçar o lugar ainda não inscrito nele, o da representação. Para o pai, aquele desenho não poderia representar um unicórnio, já que não tinha nenhum traço de semelhança. Se alguma similitude pudesse lhe ser atribuída, seria de uma forma humana. Independentemente do adulto, o menino adormecido poderia, tempos depois, se reencontrar no desenho numa sensação arrebatadora, como se o tempo fosse um instante eternizado.

 

Para o adulto, eram simplesmente traços imaturos de uma criança. A palavra cega viria como a luz delimitando as margens do representável. Ao filho, a palavra unicórnio era um rabisco. Apaga-se o desenho, e a inscrição na folha não significaria nada. Mas o desenho, este sim, seria sempre como um traço dele, que mesmo depois de décadas poderia ser sentido, como uma parte separada, faltante, que se faz percebida. Seria como um ente querido quando retorna ao seio da família.

 

IV

 

Ao abrir a porta da cafeteria, a pouca claridade foi suficiente para encontrar Virgínia. No ambiente pouco iluminado, podia-se ver um filete de sol que insistia em se infiltrar por uma pequena brecha, enquanto Virgínia, à mesa, seguia seu movimento lento e sequencial. Uma exímia neurótica que goza na aridez da repetição. Ela cortava o pequeno raio de luz ao levar a xícara com café até seus lábios volumosos. Era inevitável não olhar. Sua língua corria discretamente os cantos de seus lábios para afagar sobras acomodadas de espuma de café.   

 

Ao entrar na cafeteria, ele deixou-se seduzir pelos seus ombros nus perdidos num vestido vermelho. A testa longa avolumava-se acima do nariz curto, alinhando qualquer olhar para seus lábios disformes; assimetria insuportavelmente bela. Ele caminhou entre mesas redondas e pessoas conversando. Dos sussurros no ambiente, um comentário, como num piscar de olhos, logo despertou o estranho que vivia no homem arcaico: “A minha mãe me incomoda”. Ele não poderia ficar impune diante desse comentário amoroso. O que faz um homem manifestar seu desejo com tanta energia, a ponto de lançar a própria mãe sobre a mesa de um aconchegante café?

 

Por segundos, o arcaico não havia percebido as reproduções surrealistas postas em fileira na parede defronte ao balcão, até ouvir o fortuito comentário. Instante em que a Crucificação, de Dali, tocou no subsolo de Júlio. Da intenção de reencontrar uma amiga, do burburinho no café e das imagens na parede, foi um desconhecido que sussurrou um familiar sentido.

Esse movimento à revelia da consciência impressionou Júlio. Sua coragem era escutar as vozes que vinham desses sentidos contingentes – da mãe à crucificação –, tecendo os labirintos da alma, na qual não havia leveza do ser.

 

Ele voltou a olhar fixo o lento movimento daquela mulher, cujos dedos cavalgavam sobre a mesa. No café iluminado à meia-luz, Virgínia parecia estar alienada ao que se passava à sua volta, como se a ausência de luz a impedisse de sair de seu próprio mundo. Nem ao menos se incomodava com o filete de luz.

 

Nessas condições, Júlio iniciou o reencontro após três anos, observando seus ombros nus perdidos num vestido vermelho, para se deleitar, ao final, nos lábios disformes. Ele a via perdida e, enquanto ela corria de seus fantasmas, o arcaico espalhava-se na sua desproporcionalidade e na pele clara contrastada com o vermelhão. Com testa franzida e nariz meio repuxado, as linhas de seu rosto ficavam ainda mais assimétricas. Ele a via sem ser visto, mesmo estando na direção de seus olhos. Era visível a invisibilidade desse homem diante daqueles círculos esbugalhados e escuros, por ora lacrimejando.

 

V

 

Como na edição de um filme, somos lançados inesperadamente ao passado, aos demônios que batem à porta. Inexplicavelmente, abrimo-la como se uma força desconhecida determinasse nossa consciência. Um gozo que se repete. Abrimos para o estranho familiar até a salvação chegar pelas águas do rio Lete.

 

[Uma narrativa literária publicada no livro “Verso Prosa e outros labirintos”, organizado, em 2019, pelas editoras Ipê Amarelo e Traços & Captura.]

 

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